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Consequências dos microplásticos no organismo dos humanos: o impacto na saúde

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Os microplásticos (MPs), definidos como partículas de plástico menores que 5 mm, são um conhecido contaminante marinho com impactos prejudiciais. Atualmente, os resíduos de plástico mal administrados lançados no meio ambiente atinge os 31,9 milhões de toneladas/ano, sendo que entre 4,8 a 12,7 milhões de toneladas/ano chega ao oceano. No entanto, essas partículas são ubíquas e grandes quantidades de MPs foram encontrados não apenas no mar e nas praias, mas também em rios, sedimentos e solo, e até nos alimentos que comemos e no ar que respiramos, demonstrando o quão difundida é esta poluição moderna.  

As principais fontes de MPs incluem fontes industriais, urbanas e domésticas, que levam à contaminação das águas, lamas e ar, com consequente repercussão na contaminação da cadeia alimentar. Dessa forma, a alimentação é a principal via de exposição a MPs, nomeadamente através da ingestão de água, alimentos do mar e sal contaminados. Outras vias de exposição são a inalação de MPs ou a exposição dérmica através de produtos de higiene pessoal. Uma vez que os humanos estão no topo da cadeia trófica, o potencial de consumir MPs como contaminantes é muito elevado. As autoridades de segurança alimentar, nomeadamente a EFSA, estão agora preocupadas com as suas implicações para a segurança alimentar, acessibilidade alimentar e, consequentemente, para a saúde humana.  

A ubiquidade dos MPs tem gerado uma preocupação generalizada sobre os seus efeitos potenciais e, embora a exposição aos MPs em organismos marinhos e humanos tenha sido já documentada, o seu potencial para impactar a saúde humana ainda é pouco compreendido. Cada vez mais estudos procuram perceber as principais vias de exposição em humanos, a sua absorção e cinética e potencial de bioacumulação após a exposição. A absorção de MPs é influenciada pela sua composição química e tamanho, variando de acordo com a forma, tamanho e densidade dos MPs. Além disso, os MPs podem conter dois tipos de co-contaminantes químicos prejudiciais, muitas vezes com efeitos de alteração/desregulação endócrina. Estes incluem aditivos dos plásticos, como ftalatos e bisfenol A, bem como alguns dos retardadores de chama bromados (usados em produtos domésticos e embalagens de alimentos), mas também produtos químicos absorvidos do ambiente circundante (metais pesados, poluentes orgânicos persistentes, PAHsPCBsetc). Neste contexto, não é de espantar que as evidências sobre as consequências adversas dos MPs tenham vindo a aumentar, nomeadamente no que diz respeito ao potencial de toxicidade gastrointestinal, hepática, reprodutiva e neurotoxicidade. Os mecanismos de toxicidade podem ser múltiplos, incluindo efeitos de stresse imunológico, metabólico e oxidativo, assim como alteração do microbiota e disfunção da barreira intestinal, disfunção mitocondrial e mutação de ADN. 

No entanto, existem ainda várias lacunas no conhecimento. A resposta a questões relacionadas com as doses de exposição diárias a MPs, a cinética distribuição de MPs e co-contaminantes após a exposição e a clarificação de vias de efeitos adversos (AOPs) permitirão ajudar na tomada de decisão informada por parte das entidades responsáveis. Para tal, será necessário desenvolver mais estudos de avaliação dos efeitos de MPs em humanos, contemplando não só a exposição aguda e em adultos, mas também a exposição a baixas concentrações ao longo da vida. 

Diogo Pestana: Investigador do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde

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Nota: os artigos publicados na secção opinião são da inteira responsabilidade dos seus autores.