Emissões de CO₂ aumentam na produção de eletricidade em Portugal após crescimento do consumo

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O ano de 2025 ficou marcado por um novo máximo histórico no consumo de eletricidade em Portugal, que atingiu 53,1 TWh, representando um aumento de 3,2% face ao ano anterior. No entanto, este crescimento da procura não foi acompanhado por uma expansão equivalente da produção de energia renovável, levando a um maior recurso às centrais a gás natural e a um acréscimo estimado de cerca de um milhão de toneladas de dióxido de carbono na produção de eletricidade.

Segundo a associação ambientalista ZERO, este aumento das emissões é particularmente preocupante, uma vez que a redução do carbono no setor elétrico tem sido, nos últimos anos, o principal motor da diminuição das emissões totais em Portugal. A inversão desta tendência poderá comprometer o percurso de descarbonização do país e os compromissos climáticos assumidos a nível nacional e europeu.

Apesar de a produção renovável ter atingido um valor absoluto recorde, com 37 TWh, o crescimento face a 2024 foi residual. Na prática, as energias renováveis estagnaram enquanto o consumo de eletricidade continuou a aumentar. Como consequência, a percentagem de eletricidade renovável no consumo total desceu de cerca de 70% para 68%, interrompendo uma trajetória de crescimento contínuo da penetração de fontes limpas no sistema elétrico nacional.

Este desequilíbrio foi agravado por acontecimentos excecionais ao longo do ano, como o apagão registado no final de abril, que levou a um aumento da produção elétrica a partir de gás natural por razões de segurança de abastecimento e maior cautela na importação de eletricidade a partir de Espanha. Em 2025, a produção elétrica com base em gás natural atingiu 7,9 TWh, um crescimento de 54% face ao ano anterior, evidenciando a vulnerabilidade do sistema sempre que as renováveis não conseguem responder ao aumento da procura ou a situações imprevistas.

A ZERO identifica ainda entraves administrativos e económicos como fatores determinantes para o abrandamento da instalação de nova capacidade renovável, em particular no setor solar. A diminuição do ritmo de crescimento da potência fotovoltaica, tanto centralizada como descentralizada, bem como a estagnação no reequipamento de parques eólicos, contrastam com o volume significativo de projetos já licenciados que não avançam por falta de viabilidade económica. A baixa remuneração da produção fotovoltaica, associada à inexistência de soluções de armazenamento e às limitações da rede ibérica para exportação de excedentes, continua a dificultar a concretização de investimentos.

Neste contexto, a associação sublinha a importância de concluir com sucesso a Avaliação Ambiental Estratégica das Áreas de Aceleração de Renováveis, de forma a identificar territórios com menor risco de conflito ambiental e social, facilitando a implementação de novos projetos. Paralelamente, defende a definição de uma estratégia nacional robusta para o armazenamento de energia elétrica, capaz de viabilizar o cumprimento das metas estabelecidas no Plano Nacional de Energia e Clima, que prevê a instalação de 2 GW de baterias.

O aumento do consumo de eletricidade reflete também mudanças positivas na economia, nomeadamente a eletrificação gradual de alguns setores. Portugal conta já com mais de 200 mil veículos elétricos em circulação e registou, até novembro de 2025, uma redução significativa do consumo de gás natural, butano e propano nos setores industrial, residencial e dos serviços. Ainda assim, a ZERO alerta que a eletrificação só contribui efetivamente para a descarbonização se for acompanhada por uma expansão muito mais rápida da produção renovável, pelo reforço das redes elétricas, das interligações ibéricas, dos mecanismos de flexibilidade e das soluções de armazenamento, bem como por uma gestão mais eficiente da procura.

O balanço de 2025 evidencia que a transição energética exige uma abordagem integrada e acelerada. Não basta eletrificar consumos se essa eletricidade continuar a ser produzida com recurso a combustíveis fósseis. Garantir que o crescimento do consumo elétrico não se traduz num aumento das emissões é um desafio coletivo que requer planeamento, investimento e decisões estruturais. A aceleração das energias renováveis, o reforço das infraestruturas e a aposta no armazenamento são passos essenciais para assegurar um sistema elétrico mais resiliente, sustentável e alinhado com o objetivo da neutralidade climática.