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Película aderente a partir de tomate e grão de milho? Sim, é possível!

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E se fosse possível fabricar película aderente a partir da pele do tomate e da casca do grão de milho? Seria o final perfeito para estes dois resíduos da indústria agroalimentar e, ao mesmo tempo, uma solução sem impactos ambientais. Seria, de facto, a economia circular a funcionar.
E esse é o objetivo de uma equipa de investigação do IBET – Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e do Instituto Superior de Agronomia.

A porta-voz do projeto, Carla Brazinha, refere que “a equipa já trabalha há muito tempo na valorização de subprodutos agroalimentares. Borra de café, bagaço de uva, restos de alfarroba são algumas das matérias-primas que têm sido estudadas”.

COMO TRANSFORMAR TOMATE E GRÃO DE MILHO EM PELÍCULA ADERENTE

A inspiração veio de uma campanha da National Geographic, “Planet or plastic?”, que levou Carla Brazinha a refletir sobre a importância de conseguir uma alternativa ao plástico. “Foi um desafio que definimos. Se temos técnicas, porque não trabalhamos os biopolímeros?”, revela.

Mas, o que são biopolímeros? São compostos produzidos a partir da ação de seres vivos ou obtidos através de fontes ou matérias-primas renováveis: como têm um ciclo de vida mais curto, são biodegradáveis, o que oferece uma vantagem imediata para o ambiente.

O passo seguinte foi a identificação de duas matérias-primas renováveis: o arabinoxilano, abundante na casca do grão de milho, e a cutina, que está presente na pele do tomate. De acordo com a investigadora, ambos podem ser usados para embalagens, mas têm outras propriedades: é o caso da primeira substância, que apresenta benefícios prebióticos, pelo que pode servir de alimento das “bactérias boas” do intestino. E que “é um bom candidato para um filme comestível”.

A ideia é trabalhar estas duas matérias-primas como substituto da película aderente, mas o processo ainda está distante desse desfecho. Para já, no caso da casca do grão de milho, as atenções centram-se em perceber melhor como dar estabilidade ao filme daí resultante: é que a matéria-prima original é da família do açúcar, o que a torna muito solúvel em água – logo, não é possível usá-la como embalagem, pois a humidade própria dos alimentos iria degradar o filme.

Com a cutina o processo está um pouco mais avançado. O trabalho envolve o chamado repiso do tomate, isto é, uma mistura com peles e água, de que foi preciso isolar a cutina. Uma vez removidos os elementos que não interessam, a mistura foi seca e, para extrair a cutina, foi usado uma hidrólise suave alcalina. De seguida, foi purificada, resultando num éster, ou seja, uma fibra parecida com a de lã, mas plástica. E solúvel em óleo – esta é a grande vantagem, pois isto significa que o filme assim obtido funciona como “uma barreira muito eficaz” para a água, logo, uma garantia de impermeabilização e conservação dos alimentos. O que são boas notícias!

Até agora, tudo tem acontecido à escala laboratorial. Carla Brazinha partilha que estão a ser feitos testes de resistência, de cor, de permeabilidade, entre outros: “Obtivemos já filmes com bom aspeto. Mesmo com uma pequena quantidade, o filme é homogéneo, o que é muito interessante.”

A etapa seguinte é experimentar solventes mais sustentáveis, uma nova geração de solventes verdes para que, efetivamente, o filme seja vegan. No horizonte mais próximo está igualmente avançar para a escala piloto.