O investigador Hugo Gaspar, do Centre for Functional Ecology: Science for People & Planet da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), é um dos autores da segunda avaliação da Lista Vermelha das Abelhas Europeias, conduzida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Especialista em taxonomia, ecologia e conservação de abelhas selvagens em Portugal, Hugo Gaspar contribuiu para esta avaliação científica que reúne novos dados sobre o estado destas espécies. Apesar do aumento do conhecimento disponível, o relatório revela também um agravamento preocupante do estado de conservação das abelhas na Europa.
Número de espécies ameaçadas duplicou na última década
Segundo o novo relatório da IUCN, 10% das abelhas selvagens europeias estão ameaçadas de extinção. No total, 171 das 1.928 espécies avaliadas encontram-se atualmente nesta situação.
Este número representa mais do dobro das 77 espécies ameaçadas identificadas em 2014, quando foi realizada a primeira avaliação.
Por outro lado, a nova edição permitiu reduzir significativamente o número de espécies classificadas com estatuto de “Dados Insuficientes” (Data Deficient). Em 2014, este grupo representava 57% das espécies avaliadas. Atualmente, corresponde a apenas 14%.
Assim, esta segunda avaliação tornou-se a análise mais abrangente já realizada sobre o estado de conservação das abelhas selvagens na Europa.
Espécies essenciais para os ecossistemas e agricultura
Entre os grupos mais afetados encontram-se os abelhões (género Bombus), bem como espécies dos géneros Colletes e Dasypoda.
Estas espécies desempenham um papel essencial na polinização de plantas silvestres e de culturas agrícolas. Por esse motivo, são fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas terrestres e para a produção alimentar.
Das 171 espécies ameaçadas na Europa, 67 ocorrem em Portugal. Este número corresponde a cerca de 9% das 747 espécies de abelhas registadas no país.
Entre as 25 espécies classificadas como “Criticamente em Perigo” na Europa, apenas uma está presente em Portugal: o epéolo-de-faixas (Epeolus fasciatus), uma espécie de abelha cuco que parasita abelhas do género Colletes.
Importância de avaliações nacionais
Segundo Hugo Gaspar, o novo relatório evidencia o progresso científico alcançado nos últimos anos no estudo das abelhas europeias.
«Este documento é mais uma prova do aumento do conhecimento, ainda que limitado, resultante do investimento que tem sido feito no estudo das abelhas na Europa», explica o investigador do Departamento de Ciências da FCTUC.
No entanto, o especialista sublinha a necessidade de desenvolver avaliações nacionais específicas.
“É importante compreender que o nível de ameaça depende do contexto geográfico. Neste documento é recomendada a criação de listas vermelhas nacionais específicas de abelhas selvagens, ainda inexistente em Portugal”, afirma. Segundo o investigador, uma espécie pode não estar ameaçada à escala europeia e, ainda assim, enfrentar riscos significativos a nível nacional.
Projetos de investigação e conservação em curso
Na FCTUC e no FLOWer Lab, têm sido desenvolvidos vários projetos dedicados à conservação das abelhas selvagens e de outros polinizadores.
Entre as iniciativas em curso destaca-se o doutoramento de Hugo Gaspar, que procura aprofundar o conhecimento sobre a distribuição e identificação das abelhas selvagens em Portugal.
Além disso, a equipa participa em vários projetos científicos relevantes, como:
- PolinizAÇÃO, responsável pelo Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores em Portugal
- ARCADE, dedicado ao melhoramento das coleções de referência nacionais
- BeeConnected SUDOE, um projeto europeu focado no restauro ecológico de habitats e na conservação de polinizadores selvagens
A nova Lista Vermelha das Abelhas identifica cinco fatores principais que ameaçam a sobrevivência destas espécies:
- intensificação agrícola
- alterações climáticas
- perda e fragmentação de habitats
- espécies invasoras
- poluição
Para responder a estas ameaças, o relatório identifica várias prioridades estratégicas. Entre elas destacam-se:
- proteger e restaurar habitats naturais
- promover práticas agrícolas favoráveis aos polinizadores
- reforçar a monitorização e a investigação científica
- fortalecer a rede de especialistas
- integrar a conservação das abelhas nas políticas públicas existentes
Assim, os investigadores defendem uma abordagem integrada que permita proteger estes polinizadores essenciais para a biodiversidade e para a segurança alimentar.

















